“The older I grow, the more I distrust the familiar doctrine that age brings wisdom.” - H.L. Mencken

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Dez 17

É bem possível que a nossa capital seja o sítio mais propício à demonstração de um grave problema que assola Portugal e as suas gentes – a falta de capacidade de compromisso com seja o que for, quando for, onde for.
Ao nível macro, há muitas e fortes evidências deste flagelo. Vejamos:
- Quem votou nos cabrões no Governo (aplicável desde sempre e a todos os governos)?
Resposta: Ninguém (“eu não votei neles!”, “quem votou neles é que devia ser obrigado a fazer o que dizem!”, “eu nem fui votar!”, “eu votei nulo!”, “eu votei no meu primo Vitó!”, etc.)
- Quem entope as urgências dos hospitais e centros de saúde com situações menores?
Resposta: Eles! São eles, os tansos! Apanham uma constipação e tungas, Santa Maria com eles!, etc.
Mais exemplos há sobre a importância (e culpa) de figuras tão importantes como o Ninguém e o Eles, mas, o tempo urge e este post já vai longo (um cadinho, vá).
Passando para o nível micro, temos situações que também indiciam a falta de compromisso que assola este país. Ora...
- Quem comeu as bolachas que deixei em cima da minha mesa?
Resposta: Eu não fui! (o que dá para traduzir por “ninguém”)
- Quem acabou com o papel higiénico e não substituiu?
Resposta: Ninguém! (a malta até só caga em casa e aquele cheiro que por vezes se sente é dos esgotos).
- Quem foi a última pessoa a sair e deixou as luzes acesas?
Resposta: Ninguém (no entanto, se a pergunta fosse feita com apenas a sua primeira parte, haveria muito boa gente a levantar o bracinho pensando que estavam a fazer boa figura).
Mas a situação que mais indicia esta incapacidade para o compromisso é o flagelo do Pisca-que-nunca-o-é.
Eu explico.
Em Lisboa, existe agora uma moda que possui duas fações.
Ambas contestam o apropriado uso dos piscas para assinalar uma qualquer manobra mas uma é totalmente hardcore, purista e pouco disposta a alterar a sua forma de agir, enquanto que a outra é um pouco mais soft, mais adaptável, mais branda, mas igualmente pouco disposta a alterar a sua forma de agir.
A primeira é a que pura e simplesmente não faz pisca.
Quando empreendem uma qualquer manobra, empreendem-na e pronto. Há um espacinho entre aqueles dois carros numa fila que anda a 5 ou a 120 à hora? É para lá que desviam o carro sem dar pêva a ninguém.
Questionados sobre esta atitude, dirão: Eu?! Eu faço sempre pisca! E até parece que não havia espaço! Até parece que a estrada não é de todos! Fascistas, pá! É por essas e por outras que Portugal está onde está! Fascistas!!
A segunda é a que tem o centro de tomada de decisão do cérebro ligado directamente à mão esquerda. Para estes, a decisão de manobrar o veículo para outra faixa/rua/etc possui acção imediata sendo a decisão tomada, o pisca accionado e o veículo manobrado - tudo em simultâneo.
Questionados sobre esta atitude, dirão: Atão mas eu não fiz pisca, querem ver?! Eu faço sempre pisca! E até parece que não havia espaço! Até parece que a estrada não é de todos! Fascistas, pá! É por essas e por outras que Portugal está onde está! Fascistas!!

Se nem com a porra de uma manobra devidamente assinalada nos conseguimos comprometer ou assumir essa responsabilidade perante os outros, como nos vamos comprometer com o resto? Como esperam que o resto seja melhor quando, no caso dos piscas, há malta a morrer e mesmo assim, as duas fações mantêm as suas posições?
USEM A MERDA DO PISCA, PORRA. QUAL É A DIFICULDADE?! QUAL?!
Nenhuma, querem ver?
E são apenas “eles” que não fazem, né?
Ninguém iria colocar os outros assim em perigo, né?
Pois.
É o costume.

publicado por Sónia às 11:04

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