“The older I grow, the more I distrust the familiar doctrine that age brings wisdom.” - H.L. Mencken

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Dez 17

A recente polémica em torno dos livros de exercícios da Porto Editora parece ter ficado resolvida com a opinião e intervenção do Ricardo Araújo Pereira.
Finalmente alguém lúcido (e com piada) que soube ver a questão com olhos de ver. Adquiriu os livros, analisou-os, pensou no assunto e depois falou. E se falou. Desde as autoras até à intervenção da CIG, o caso foi analisado por diversos ângulos e a conclusão, limpinha, foi a de que os dois livros possuem dificuldades iguais, exercícios iguais e discriminações e estereótipos de género iguais, para os dois lados.
Tudo muito certo.
Só que não.
Em primeiro lugar, os livros para rapazes têm 6 exercícios de dificuldade elevada contra 3 no das meninas (pesquisem).
Em segundo lugar, dizer que não há direito a reclamar contra discriminação ou estereótipos do género feminino porque o masculino também foi alvo do mesmo tipo de discriminação é a saída fácil e inócua que nivela tudo para o fundo do mesmo poço. É o "mas eles também fizeram!" que ouvimos nos pátios das escolas quando alguma criança faz merda. A desculpa suprema é haver mais quem faça, é a coisa ir nos dois sentidos, é ela existir para todos. Invocando-se isso, tudo fica perdoado.
Não. Não. Não. Não. Não.
Isso não vale. Seja para um lado, seja para o outro.

A conversa que tem havido nos últimos dias tem levado caminhos algo profanos. Que, com esta polémica toda, querem é que as meninas façam e sejam coisas de meninos e vice-versa. Que há diferenças e que essas diferenças têm de ser reconhecidas e delineadas! (não vá a malta confundir um martelo com uma varinha mágica e estragar a obra).
Não é, nem nunca foi, essa a questão. Nem pode ser.
O que se defende, para quem o defende, é que as meninas não têm de ser descritas com rótulos que as descrevem como sendo mais estudiosas e os meninos como mais brincalhões (por exemplo). As meninas não têm de aparecer em vestidos de princesa e os meninos com roupas de pirata. As meninas não têm de ser rotuladas de mais espertas e eruditas e os meninos como mais activos. Está errado para os dois lados. Ponto.
Hoje vi alguém a reclamar de uma estatística que indicava uma percentagem maior de mulheres a concluírem o ensino superior e a proclamar que tal é discriminatório para os homens, que tal devia ser investigado para se saber de onde vem tamanho falhanço na educação universitária dos nosso jovens.
Talvez seja por aí. Enquanto que as princesas andam a ler livros e a fazer contas, os piratas andam a brincar com animais, na rua a esfolar joelhos ou a correr de um lado para o outro. Ou não pensaram nisso assim? Estudassem!
Se querem defender que afinal não há mal nenhum porque ambos são iguais e sofrem do mesmo mal, saibam que estão errados nessa premissa, nesse justificativo, nessa forma de desculpar o mau por não ser péssimo. Estão errados. Façam o que entenderem com essa informação, mas estão errados.
Existe discriminação de género em tudo, em todo o lado, para todos - masculino e feminino. Se é o feminino quem mais reclama? É. Tem mais experiência do fundo do poço. Já lhe conhece os sapos todos (mesmo que ainda haja muito quem acredite que com um beijinho virem Príncipes).
É contra isso que se deve barafustar. É contra haver mais mulheres a terminar os estudos porque os homens são educados a fazer, não a ser e pensar, por exemplo. É contra oferecerem-se livros e bonecas às crianças meninas e tractores e figuras de acção aos meninos.
É barafustar contra o sexismo que existe no mercado de trabalho que dita que os homens têm de receber mais (e em média de 30%) do que as mulheres que têm o mesmo trabalho que eles porque, afinal, eles é que são o sustento da casa.
É barafustar contra o facto de a maior parte dos tribunais de família atribuir custódia de uma criança à Mãe, mesmo que o Pai tenha mais e melhores condições que ela.
É mandar à merda tudo quanto deite abaixo, tudo quanto aniquile, tudo quanto destrua as perspectivas de uma pessoa apenas e só com base no seu género (ou raça, ou orientação sexual, ou religião... mas isso seria outro post). É recusar tudo quanto impeça uma pessoa de ser, ter e fazer aquilo que deseja e que tanto o processo como os resultados sejam justos entre si.
Portanto, Ricardo, tudo muito certo, tudo com muita piada, hahahaha, etc.
Só que não.
Estudasses.

publicado por Sónia às 09:59

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