“The older I grow, the more I distrust the familiar doctrine that age brings wisdom.” - H.L. Mencken

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Jun 15

Todos temos tampas. Não tampas das que se levam (ainda que se levem) mas das que se colocam mais ou menos elegantemente em cima de certos assuntos. Para além de todas as pequenas tampas que vamos distribuindo no dia-a-dia, tapando conversas parvas, reacções estúpidas ou coisas demasiado incompreensíveis para ficarem à vista, há umas tampas especiais, com grampos, que só são usadas em caso de extrema necessidade.
Estas, e podem ser muitas, as necessárias, têm sítio próprio onde só elas cabem e se encaixam. Por norma, situam-se ali algures no esófago, entre onde fica o coração e o estômago. Para além de não deixarem que mais coisas alimentem certas situações, não permitem que as putas das reacções viscerais contaminem o pobre o sensível coração ou que fiquem com caminho livre até à boca de onde tudo pode sair à mais pequena provocação.

São difíceis de colocar porque, por norma, só as vamos buscar quando já está tudo em erupção – os pulmões ofegantes, a boca seca de tanta disparate dizer, o coração descontrolado a bater a mil e o estômago armado em contorcionista, engolindo e cuspindo tudo fora ao mesmo tempo. É uma festa. E para manter a festa dentro dos limites razoáveis e evitar que alguém chame as autoridades, vão-se buscar as tampas e, no meio do caos, colocam-se no lugar, fixando-as e aguardando que tudo, daí em diante, acalme. Limpa-se o que estiver sujo, arruma-se o que estiver por arrumar, ajeita-se o quadro torto, sacodem-se os cortinados, endireita-se o tapete.
Temos de ficar sempre de olho nelas, a ver se continuam a vedar, a proteger, a impedir que se volte ao caos anterior em que se respira pelo coração, se fala pelo estômago, se sente com os ossos. Com o tempo, após o devido tempo, podem ser retiradas e analisados os estragos permanentes. Mande-se fazer novas tampas, maiores ou mais pequenas, mais fortes ou mais leves. Ou deitem-se fora de vez. Tudo depende dos estragos permanentes que fiquem em nós, enterrados em nós, digeridos em nós, marcando a passagem de algo pela vista e que no-la tolda para sempre.

Todos temos tampas, mas o melhor é tê-las sempre à mão. Nunca se sabe que voltas nos vão dar às entranhas.

publicado por Sónia às 13:00

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