“The older I grow, the more I distrust the familiar doctrine that age brings wisdom.” - H.L. Mencken

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Jun 15

Há cada vez mais pessoas com fortes desejos de voltarem às supostas raízes, reclamando o direito ao pé descalço, ao banho por tomar, à comida por cozinhar, renunciando à civilização moderna com todos seus artefactos e patetices supostamente desnecessárias. Há cada vez mais pessoas a exigirem o menos como forma de conseguirem o mais.
Pois então. Isso é tudo muito bem, tudo muito bonito, tudo muito louvável e afins. Sim, sim.
Mas não é para mim. Eu, produto mais ou menos bem acabado de milhares de anos de evolução humana, prefiro os meus pezinhos massajados com óleos e essenciais naturais ao invés de os ter sujos e calejados pela recusa de um bom par de sapatos. Eu não quero a minha pele seca e gretada pelo uso de folhas de oliveira com as quais me devo esfregar em substituto de um belo, relaxante e profundamente indecente banho em gigantesca banheira cheia de espuma bem cheirosa. Eu não quero que o que como me seja apresentado em estado cru e por explorar. Eu quero descobrir que aquele puré inocente, afinal, sabe a algo inesperado e delicioso, acordando sensações e colocando todos os sentidos em alerta.
Eu reclamo o direito ao luxo, ao bom, ao melhor. Eu reclamo o direito a um belo banho diário, a calçado de qualidade, a roupa lavada e em bom estado, a uma educação requintada, cheia, pomposa. Exijo o cumprimento do meu direito a um trabalho que me estimule, que me faça criar, que me dê prazer e me recompense dignamente. Reclamo o direito a produtos que me matem dores, que me atenuem mazelas, que façam com que a vida seja mais confortável. Reclamo o direito a poder viver e usufruir da civilização que tanto nos demorou a criar e à qual renunciamos com tanto afinco, dando o dito por não dito, porque o que é realmente bom é andar com lama no pés e sol na alma.
Eu gosto que o sol me chegue enquanto estendida à beira da piscina de um hotel de 5 estrelas. Gosto de saber que esse mesmo sol tenha ajudado fazer crescer os produtos usados para a criação de uma refeição cheia de estrelas Michelin e quero que a minha toalha de praia de marca, absurdamente cara, me apanhe o suor que tanta actividade bom-vivant provoca. Eu não renuncio aos prazeres do dinheiro, do conforto, do bom, do requinte, do excelente, do maravilhoso.
Mas pobre é mesmo assim, não é? Reclama direitos irreclamáveis, exige o inexigível. Sonha com tudo isto enquanto tenta tapar o buraco na t-shirt de 3 euros, enquanto engana a fome torrando pão para um pouco de manteiga, enquanto apaga luzes para não aumentar a conta de electricidade que já custa tanto a pagar, enquanto tenta esconder o bronze delimitado pela tal roupa a cair aos bocados.
Voltar às tais raízes? Se pensarmos bem, não é por não vivermos em casas de lama e fazermos velas caseiras que não vivemos na selva e às escuras.
O que eu adoraria um bom banho numa enorme banheira cheia de espuma enquanto pensava em qual o estilista que iria vestir nessa noite para ir a restaurante a abarrotar de estrelas Michelin provar comida fora deste mundo e usufruir de companhia e conversa inteligente sobre assuntos tão interessantes como o processo de criação artístico do Pollock ou de como correu a última visita ao Louvre.
Cada um com a sua selva para desbravar e sol do qual se tapar.

publicado por Sónia às 14:45

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