“The older I grow, the more I distrust the familiar doctrine that age brings wisdom.” - H.L. Mencken

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Mai 15

Tenho um problema com o escuro, o preto. Não é tom que use com frequência. Acho-o pesado, abafador, vazio, demasiado forte, demasiado fraco (corajoso é um rosa choque, um amarelo brilhante, um vermelho sangue). Uso-o quando assim tem de ser, em situações que exijam uma certa classe, uma certa postura. De resto, não.

Hoje, o dia está azul e claro, leve. Está, podemos dizer, bonito. Daqueles dias que dão vontade de ser vividos em pleno. Lembrados.
Era suposto estar de preto. Era suposto ter conseguido ultrapassar o meu problema com o tom, perdoar-lhe a ofensa de ser tão cobarde, e usá-lo. A situação, afinal, assim o exige. Mas, não fui capaz. Puxei a camisola pela cabeça abaixo e antes que me tocasse na pele, puxei-a para longe de mim e fiquei a olhá-la, a ver-me ao espelho, semi-vestida, totalmente nua ali perante aquela luta. Despi-a, recusando ter que sequer lhe dar o prazer da batalha, da briga. Como é que se luta contra um vazio cobarde?
Branco. Estou de branco. Estou de tom limpo e sereno, imaculado. Estou como o dia, claro e leve. Talvez alivie o peso que este hoje tem, talvez alivie os olhos carregados, cansados, vermelhos que me hão-de olhar e reparar naquela interrupção na escuridão que há-de reinar.

Talvez, se pensarmos bem, a melhor forma de combater um vazio cobarde vestido de preto seja dar-lhe com luz, inundá-lo com um sonoro “Não.” em tom desafiador que ilumina e liberta.

“Do not go gentle into that good night. Rage, rage against the dying of the light” (Dylan Thomas).
Para os que ficam, é o que nos resta. Não nos permitirmos ser engolidos pela escuridão que sobra depois do adeus supremo.
Branco. Estou de branco.

publicado por Sónia às 13:03

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