“The older I grow, the more I distrust the familiar doctrine that age brings wisdom.” - H.L. Mencken

17
Ago 15

Eu apanho bichos. Não é um apanhar estilo casual, não. É um apanhar estilo íman, como se fosse pedaço de bife deixado ao relento que atrai todos os seres rastejantes e/ou voadores com capacidade de morder e deixar marca em pele sensível e translúcida. Digo isto até com algum orgulho porque, conhecendo quem não os apanhe nem à lei da bala, sinto-me possuidora de raro talento e capacidade que, sejamos sinceros, é muito bom para o contar de histórias e o plantar de terror nas mentes mais imunes ao tema.
E como é que eu apanho bichos? Existindo. Eles vêm até mim como se fosse a Meca da Mordidela, o suprassumo (literalmente quanto ao "sumo") do enterrar de dentes em carne viva, a experiência máxima, o auge de uma vida (suponho eu pela dedicação com que me tratam). Eu sou o Food Porn dos bichos e quase que apostava que andam todos com a minha fotografia na carteira, que contam histórias sobre avistamentos, que juram a pés juntos terem provado da colheita de 2011 e de ter sido a melhor coisa à face da pele humana.
E eu não só atraio bichos, qual refeição gourmet pronta a ser servida a quem quiser. Não. Eu atraio e depois mantenho-os. Não se querem ir embora. Recusam-se a partir. Se for bicho com capacidade para se esconder algures atrás da orelha, é lá que ele vai encontrar lar (desde que não ocupado, claro. Acho que os gajos têm esquema tipo hotel montado para a coisa). Não acreditam?
Há uns anos, após passeio a campo, apanhei uma pulga. Deve ter sido a pulga mais feliz do mundo porque, durante quase 3 semanas, a gaja não me largou. Eu tinha mordidelas na cabeça, nos joelhos, na cintura - um pouco por todo o lado. Até foi de férias comigo para o Algarve. Apanhou sol, foi à praia, pôde usufruir de pele bem hidratada com cremes... Férias 5 estrelas. Eu tentava afogá-la deixando-me ficar dentro de água só com o nariz de fora mas, nem assim. 
Quando me perguntavam o que tinha na pele, eu respondia com a verdade: foi uma pulga. Invariavelmente, as pessoas começavam-se a rir e a achar que estaria louca. Dizia que era eczema e lá acreditavam. Enfim.
O caso foi tão grave (e eu sentia-a, às vezes, a percorrer-me o corpo, a afiar o dente... estava a ficar paranóica e, ainda hoje, quando sinto algo na pele, primeiro vou ver, depois é que coço) que fui ao médico. Disse-me que era pelo meu sangue. Que era docinho e bom. Tão bom que a put- ai, pulga, ficava no meu corpo e não na roupa. Não se ia embora!
Após o suplício das três semanas, lá a apanhei, gorda e lustrosa, deixando-o enrolada numa t-shirt e devidamente afogada no bidé para servir de prova em como eu não estava maluca.
Aprendi a lição.
Daí e diante, bastava sentir uns comichões esquisitos e ver marcas manhosas que procedia logo para a farmácia e, em posse de embalagem de um qualquer remédio para lêndeas e piolhos (não há remédios para bichos nos humanos como há para os animais, infelizmente. Lêndeas e piolhos é o melhor que se consegue), atirava-me para o chuveiro onde, com toda a calma do mundo, despejava conteúdo pelo corpo acima. Sim, acima. Era a minha vingança. Começava pelos pés e ia subindo, fazendo com que qualquer bicharoco tivesse que subir até à cabeça. Aí, segura de que estaria lá, era só despejar o resto e... Bye-bye! Quinze minutos depois, lavadinha e a cheirar a químicos, tinha o tratamento feito.
Tudo isto porque, ontem à noite, acordei cerca das 04:45 com comichão numa perna. Fui e ver e tinha 4 mordidelas de bicho desconhecido (não pulga, que essas conheço bem), bem bonitas e em fila. De manhã, tinha outra por baixo do braço e ao fundo das costas. E agora, enquanto aqui estou, era capaz de jurar que sinto algo a mexer-se aqui algures na nuca.
Sim, é horrível e nojento. É daquelas coisas que fazem questionar os hábitos de higiene das pessoas. Comigo, no entanto, sei que basta pisar relva, dar festinha a cão ou visitar sítio onde haja bichinhos sedentos de sangue do bom.
Eu tenho sangue raro e doce que atrai bichos, bichinhos e bicharocos. E por muito que de vez em quando me apeteça falar disto como metáfora, é mesmo verdade.
E agora, com licença que me ali coçar e ver se a farmácia está aberta.

publicado por Sónia às 12:35

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